segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Dilma, a fronteira e o Paraguai

Por Guilherme Wojciechowski*

Os últimos sete dias foram de mudanças no contexto político das duas maiores potências do Mercosul. Uma delas, a morte de Néstor Kirchner na Argentina, foi imprevista e afetará, diretamente, o panorama da sucessão presidencial em terras platinas; a outra, que já tinha data marcada e até bola cantada, foi a definição de quem venceria o segundo turno da eleição presidencial no Brasil.

No Paraguai, que depende do Brasil e da Argentina, inclusive, pra ter acesso ao mar, a reta final da eleição brasileira foi acompanhada com atenção pelos analistas políticos, que em seus debates e reflexões apontavam, via de regra, a candidata Dilma como a melhor opção para o país, tendo como base a continuidade da política de relacionamento com os vizinhos adotada pelo governo Lula.

Durante a campanha, José Serra deu mostras de agressividade para com os vizinhos, ao declarar que o atual modelo do Mercosul não serve (em ponto de vista que também faz parte do pensamento de setores políticos e empresariais paraguaios); e profundo desconhecimento, ao tratar as negociações entre Brasil e Paraguai sobre a usina de Itaipu como “filantropia” e ao colocar, em uma mesma sacola, os problemas do contrabando e do tráfico de drogas e armas (segundo ele, “contrabando de drogas e armas”).

Discursos de campanha à parte, a vitória de Dilma acaba sendo favorável ao relacionamento Brasil / Paraguai, não apenas pela candidata ser cria de Lula e pertencer ao mesmo partido, mas pelo fato de que, com a aliança PT/PMDB consolidada e a ampliação da maioria governista na Câmara dos Deputados e no Senado, será mais fácil para o governo brasileiro votar os projetos que lhe interessam, entre eles, a validação do acordo de Itaipu, que para entrar em vigor ainda depende de aprovação parlamentar.

Outro tema importante e que espera-se que tenha avanços com a continuidade do atual signo governista, é a aplicação da Lei dos Sacoleiros, que embora tenha sido “travada” pelo governo Lula e, quase dois anos depois de sua publicação no Diário Oficial, continuar sem sair do papel, é provável que, com PSDB/DEM no poder, tal lei, que contraria interesses da indústria e de grandes comerciantes paulistas, continuasse na gaveta onde está e dificilmente saísse à luz.

Mas se há temas, porém, que dificilmente sofreriam alterações caso o resultado das urnas fosse outro, estes temas são, certamente, os esforços para a regularização de brasileiros e paraguaios residentes ilegalmente em cada país e as políticas de cooperação em matéria de segurança e repressão aos chamados “crimes fronteiriços”. Nos planos de governo de ambos candidatos, as menções às políticas de segurança para regiões de fronteiras eram similares e até pecavam nos mesmos pontos, o que mostra que, infelizmente, ainda estamos longe de uma real solução ou compreensão dos fatos.

* Coluna escrita, originalmente, para publicação no portal Paraná Online. Para conferi-la no endereço original, clique aqui.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Agradecimento e Despedida

Por Guilherme Wojciechowski

Nesta quarta-feira (21/09), anuncio aos leitores e ouvintes, oficialmente, minha saída da Band News FM Curitiba, rádio na qual estive nos últimos três anos, desde agosto de 2007, e à qual só tenho a agradecer, não apenas por ter sido minha primeira experiência séria no rádio, como pelo tanto que aprendi neste período, pelos amigos que fiz e pelas portas que abriram-se desde então.

O começo desta história é algo que nunca canso de contar. Numa manhã de quinta ou sexta, já atrasado para sair de casa, atendo o telefone e, do outro lado da linha, Gladimir Nascimento, profissional pelo qual nutro a mais alta admiração, fazia-me a proposta que, antes mesmo que a ficha pudesse cair, já tinha aceitado.

Pode uma emissora de renome nacional interessar-se por um desconhecido blogueiro que mantinha seu blog apenas por paixão? Neste caso, não somente pôde, como aconteceu.

A primeira vez, como diz o ditado, é outro momento do qual não esquecerei. Imagine-se, às 07h20 de uma segunda-feira, falando ao vivo para sabe-se lá quantos milhares de ouvintes, sobre um tema tão espinhoso e incerto como o fecha-não-fecha da Ponte da Amizade que, naquele exato instante, era palco de um protesto de trabalhadores paraguaios descontentes com a fiscalização na cabeceira brasileira.

Fora do ar, Denise Mello, hoje na Banda B, não perdeu a oportunidade de perguntar: “foi bom para você?”. Foi sim, Denise. Despertou uma febre pela adrenalina do rádio ao vivo que, até hoje, segue queimando em minhas entranhas.

Nestes três anos, foram muitas as histórias, algumas delas, pitorescas, como as marchinhas cantadas em portunhol em pleno sábado de Carnaval (com Giselle Hishida gravando e tirando sarro via MSN); outras delas, preocupantes, como o dia em que escapei de uma tentativa de atentado (cortesia de traficantes de gasolina) ou o programa em que o senador paraguaio “Calé” Galaverna resolveu, com o Fábio Campana, acertar as contas com o rival Roberto Requião e insultá-lo ao vivo no ar.

Não esqueço-me, ainda, dos companheiros de bastidores e dos bons jornalistas e radialistas que passaram ou continuam pela casa. Ao nomeá-los, corro o risco de cometer injustiças por não citar algum nome ou escrever um primeiro e outro depois (não é chavão), motivo pelo qual, deixo saudação coletiva aos rubro-negros(as) ou não-rubro-negros(as) com os quais tive o prazer de dialogar e conviver neste tempo.

Motivo da saída? Aqui vem a “bomba” que, talvez, desagradará uns muitos e agradará outros tantos.

Como muitos talvez se lembrem, em abril de 2008, durante as eleições que derrubaram o Partido Colorado após 61 anos de governo no Paraguai, estive em simultâneo, ao vivo do Paraguai, com as redes Band News FM e CBN, que na capital paranaense, pertencem ao mesmo grupo empresarial.

Com a chegada da CBN em Foz do Iguaçu, marcada para amanhã, quarta-feira, 22/09, na antiga frequência da Rádio Foz (AM 1320 KHz), é para lá que estou migrando, atraído por um projeto que, ambicioso como tem de ser, irá sacudir as estruturas do rádio informativo na região fronteiriça. A emissora será outra, porém, a busca pela qualidade, a melhoria e a informação precisa continua a mesma.

A todos os que acompanharam-me neste período, meus sinceros agradecimentos e cumprimentos de até logo. Aos que estarão comigo na nova empreitada, boas-vindas!

¡Saludos!

Guilherme Wojciechowski

P.S. I - também a partir de amanhã, depois de dois meses de duro trabalho e muitas linhas de HTML escritas, entra no ar a nova versão do layout do Sopa, mais funcional e adaptada às exigências da internet atual. Não deixe de conferir.

P.S. II - apesar da migração Band News / CBN, o Sopa Brasiguaia continuará normalmente em suas diferentes versões (Paraná Online, AM 1060 Curitiba, entre outras), bem como as colunas assinadas por este editor em revistas, sites e informativos do Brasil e do Paraguai.

sábado, 11 de setembro de 2010

O 11/09 e a Tragédia Paraguaia

Por Guilherme Wojciechowski*

Há exatos nove anos, o dia 11/09 está marcado, para os que seguem o calendário ocidental, como o dia de uma das tragédias de maior impacto recente (pelo menos, em termos de mídia). Falo, logicamente, dos sequestros de aeronaves e atentados que abalaram os EUA e derrubaram as Torres Gêmeas.

Antes disso, o 11/09 já era lembrado, por chilenos e militantes de esquerda, como o dia em que Salvador Allende, presidente do Chile, suicidou-se ou foi assassinado (há divergências) durante o cerco militar que acabou com a democracia no país e instaurou a sangrenta ditadura de Augusto Pinochet.

No Paraguai, o dia 11/09 também é uma data histórica, inicialmente festiva. Em 11 de setembro de 1887, patriotas paraguaios, liderados pelo general Bernardino Caballero, fundaram o Partido Nacional Republicano, posteriormente, Associação Nacional Republicana (ANR), vulgo Partido Colorado.

Partido político mais influente da história do Paraguai, a ANR é, também, a agremiação que mais tempo esteve no poder em toda a região, governando o país, em seu último período, entre os anos de 1947 e 2008 (35 dos quais, sob ditadura comandada pelo sanguinário Alfredo Stroessner).

E é aqui, precisamente, que tem início a Tragédia Paraguaia, bem menos gloriosa e literária, é certo, que sua prima oriunda da Grécia antiga.

Durante os 61 anos em que estiveram no poder, colorados e coloretes (termo depreciativo criado para designar os oportunistas que utilizam-se do partido para proveito próprio) apossaram-se da estrutura do Estado de tal maneira que, mesmo hoje, dois anos e meio depois da derrota nas eleições de 2008, ainda é difícil não ligar a bandeira vermelha ao brasão das instituições públicas.

Com os coloretes no poder, estar filiado ao partido era quase que obrigação para conseguir cargos no funcionalismo ou vencer licitações. Com os coloretes, a corrupção, que já era um problema, institucionalizou-se e virou quase uma religião.

Fazem parte dos atos da Tragédia Paraguaia, ainda, indignantes cenas de torturas, desaparecimentos e execuções debitadas na conta do ditador Alfredo Stroessner (1954-89), bem como o criminoso abismo social que faz do Paraguai, juntamente com a Bolívia, um dos países mais atrasados do continente.

Os 61 anos de governos ininterruptos geraram, também, outros dois fenômenos interessantes: uma oposição que não sabe fazer papel de governo e colorados que não sabem fazer cena de oposição.

Pode-se dizer, no entanto, que a derrota de 2008 foi apenas parcial.

Mesmo tendo perdido a presidência, a ANR ainda domina o Poder Judiciário (no Paraguai, ministros e juízes são nomeados via cotas políticas), conta com a maior bancada do Senado e da Câmara, controla cerca de 70% das prefeituras do país e influencia, diretamente, na “má vontade” de figurantes pouco favoráveis às mudanças prometidas pelo novo governo.

Futuro do partido? Dependerá, diretamente, de sua performance nas eleições municipais de novembro, vistas como uma espécie de “prévia” do que será a disputa da presidência em 2013. Sem contar com um nome forte em suas fileiras (no Paraguai, não há reeleição presidencial), a atual aliança governista corre o sério risco de ser desbancada pela máquina colorada.

Futuro do Paraguai? Dependerá, pois, do surgimento de dirigentes sérios que, independente da filiação partidária, tenham compromisso com a população e as instituições que a representam.

Sem isso, a Tragédia Paraguaia continuará a repetir-se por anos e atos a fio, sem que ninguém, em sã consciência, tenha a mais mínima motivação para aplaudi-la.

* Artigo elaborado, originalmente, para publicação na coluna do Sopa no Paraná Online. Para acessá-la, clique aqui.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Por que traficantes brasileiros escolhem o Paraguai?

Por Guilherme Wojciechowski*

Considerado um dos maiores traficantes de drogas do Paraguai, o brasileiro Erineu Domingo Sóligo, o Pingo, natural do Rio Grande do Sul, foi preso na madrugada de sábado por agentes da Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD), na zona rural de Capitán Bado, fronteira seca com o Brasil.

Com a prisão de Pingo, três dos quatro brasileiros mais procurados pela justiça do país vizinho já estão no xadrez. Em dezembro de 2009, Jarvis Ximenes Pavão encontrou o caminho da cela. Em maio, Paulo Seco foi preso no Uruguai. Agora, foi a vez de Pingo cair nas garras da SENAD. Permanece foragido, apenas, o enigmático Luis Carlos da Rocha, vulgo Cabeça Branca.

Com tantos brasileiros instalando-se em terras guaranis para operar seus negócios ilícitos, surge, imediatamente, uma pergunta: por que os traficantes daqui escolhem o Paraguai para atuar? Tentarei, neste artigo, sintetizar algumas das principais respostas.

A primeira questão é a localização geográfica. A segunda, a falta de patrulhamento. Menos hostil que as fronteiras amazônicas, próxima aos grandes centros do Sul e do Sudeste, sem SIVAM e a meio caminho da Bolívia, a fronteira entre Brasil e Paraguai é um oásis para quem quer esconder-se e lucrar com a falta de lei.

Some a isso a fertilidade das terras paraguaias, ideais para o plantio de maconha; o deserto demográfico da região de fronteira seca; a pobreza de camponeses e habitantes dos departamentos (estados) de Amambay e Canindeyú; a corrupção policial, judicial e política... e pronto! Está feita a receita que já atraiu, até mesmo, Fernandinho Beira-Mar em seus primórdios de carreira.

Para combater a azia gerada por essa mistura, uma outra receita é necessária. Tal combinação engloba, necessariamente, ingredientes como o reforço da presença do Estado em áreas historicamente abandonadas; a melhoria na fiscalização fronteiriça; a integração entre as polícias de ambos países; e, principalmente, a implantação de políticas de desenvolvimento econômico e inclusão social.

Sem isso, Polícia Federal, SENAD e afins continuarão, por muito tempo, a ter muito (e, por que não, infrutífero) trabalho.

* Artigo elaborado, originalmente, para publicação no portal Paraná Online. Para conferi-lo em seu link original, clique aqui.

sábado, 29 de maio de 2010

Sobre patos, ovos e pontes

Por Guilherme Wojciechowski*

Quando criança, você, assim como eu, já deve ter ouvido a anedota sobre o pato que botou um ovo no meio da ponte entre Brasil e Chile. "De quem é o ovo? Do Brasil ou do Chile?", pergunta o hilário interlocutor, emendando que pato não bota ovo (quem bota é a pata) e Brasil e Chile não fazem fronteira.

Por que conto esta história? Porque a Ponte da Amizade, por incrível que pareça, é cenário de dúvida similar.

Imagine, pois, que acontece um crime no meio da Ponte da Amizade. De quem é a responsabilidade de atender a ocorrência e capturar os bandidos? Da polícia do Brasil? Do Paraguai? Ou do policial que estiver na reta que o bandido correr, mesmo o crime tendo ocorrido em outro país?

Na noite de quinta-feira, um brasileiro que retornava do Paraguai, a pé, foi esfaqueado nas proximidades da aduana brasileira, por assaltantes que fugiram em disparada rumo a Ciudad del Este.

Neste caso específico, nenhuma das polícias fez coisa alguma, uma vez que a ocorrência não foi percebida de imediato e Genival Alves da Silva, 39, permaneceu inerte na passarela,até que socorristas fossem alertados e fizessem o atendimento.

Felizmente, apesar da perda de sangue, Genival recupera-se do ferimento em um hospital de Foz do Iguaçu, para onde foi levado em uma ambulância do SIATE.

São famosas, no entanto, a falta de comunicação e as divergências de jurisdição entre as polícias de Brasil e Paraguai na Ponte da Amizade, com policiais paraguaios (e, também, marinheiros) sendo acusados, frequentemente, de fazer "corpo mole" ou acobertar as ações de delinquentes.

No papel, cada país cuida de sua metade da ponte. Na prática, roubar de um lado e correr para o outro é uma estratégia que, raramente, acaba com a prisão de seu aderente, que na maioria dos casos, nem se dá ao trabalho de chegar à linha do meio, pois sabe que, com pouco ou nulo patrulhamento, a Ponte da Amizade é, na verdade, terra de ninguém.

Dicas para evitar assaltos na ponte

Entrou em pânico ao ler o texto acima? Calma, fique tranquilo. Assaltos e outros crimes são cada vez menos comuns na passarela fronteiriça.

Se prevenir é o melhor remédio, no entanto, as dicas abaixo, que valem também para outros ambientes urbanos de grande circulação de pessoas, podem ser úteis para evitar problemas:

* Coloque a carteira no bolso da frente da calça, prestando atenção a qualquer movimento estranho. Para evitar perdas maiores, distribua o dinheiro pelo corpo. Mochilas devem ser carregadas na frente, junto ao peito. Leve apenas os documentos necessários.

* Mulheres devem evitar o uso de joias e bijuterias fáceis de serem arrancadas, como brincos, correntes e pulseiras. A bolsa deve ser mantida junto ao corpo, de preferência, do lado de dentro da calçada.

* Em dias de engarrafamento, evite deixar os vidros do carro abertos. Mantenha as portas trancadas e não deixe sobre os bancos objetos e volumes que possam chamar a atenção dos marginais. Não embarque em vans ou táxis cujos passageiros pareçam-lhe "suspeitos".

* Em caso de dúvida sobre qual meio de transporte utilizar, escolha o ônibus. Apesar de pouco confortável, cruzar a fronteira de ônibus evita também os rotineiros pedidos de propina aos motoristas brasileiros que entram de carro em Ciudad del Este.

* Se, mesmo com estas dicas, você tiver problemas, não deixe por menos! Denuncie o caso à Policia Nacional do Paraguai e aos órgãos policiais brasileiros, para evitar futuros constrangimentos provocados pelo uso indevido de documentos ou cartões de crédito.

* Artigo elaborado para publicação na coluna do Sopa no Paraná Online. Para conferi-lo no link original, clique aqui.

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